Cabo das Tormentas ou Cabo da Boa Esperança?
J. Carvalho NetoA História nos ensina que o navegador português, Bartolomeu Diaz, descobriu nas suas viagens náuticas em busca de caminho alternativo para as Índias a ponta do continente africano, então denominado Cabo das Tormentas, o nome vem do mar revolto, sujeito a muitas tempestades e vendavais. Já sabemos também que não logrou sucesso pessoal e financeiro com a descoberta, a história lhe foi mais fiel em conceder a autoria da descoberta em 1487. Nem por isso Bartolomeu Diaz deixou de navegara e construir embarcações, suas descobertas permitiram que Vasco da Gama, outro navegador lusitano chegasse às Índias, este sim com honrarias.
Logo o Cabo das Tormentas se tornaria o Cabo da Boa Esperança, pois o rei português Don João II assim enxergava, a esperança do novo caminho marítimo possível de alcançar as tão desejadas e rentáveis especiarias e outros artigos de luxo, impedidas de trafegar pelo Mediterrâneo pelos turcos. Chegar à Índia era na época o grande objetivo naval de Portugal, sua economia dependia deste domínio marinho, e nem a tomada de Gênova e de Veneza pelos turcos, nem o desconhecimento das fronteiras náuticas da costa sul (atual África), nem a falta de recursos tecnológicos impediu uma nação de seguir seu objetivo, seu caminho.
Esta introdução serve para perguntar aos leitores, o que vocês vão escolher para seus futuros ou de empresas que dirigem ou fazem parte, nomear as dificuldades de "Tormentas" ou de "Boa Esperança"? Esta crise que se passa nos dias de hoje é quase um passado, mas ainda ouviremos muitos nãos e muitas negativas por conta da mesma. Sem dúvida o mundo econômico se transformou, muitos paradigmas foram quebrados, talvez no fim deste período se retome o valor real das empresas, e o bem tangível produzido, as marcas e seu significado na sociedade, possam ser reconhecidos como uma grande riqueza, das empresas e das nações. Esta esperança deve estar na mente de todos que fazem parte da cadeia produtiva.
Bartolomeu Diaz era um esperançoso de nascença, dizem os historiadores que seu berço foi uma família de navegadores, ligado aos reis e rainhas de lá, cursou matemática e astronomia, e desde cedo fez parte de expedições navais em busca de novas terras, navegou até sua morte, nas costas da África. Ou seja, chamou de tormenta o cabo, mas não por ser pessimista, e sim descrevia na descoberta as dificuldades encontradas naquele mar. Era incansável na busca pelo novo caminho marítimo para a Índia, e o nome da boa esperança deve ter tido o seu aval, pois como homem do mar, navegador experiente e fiel trabalhador do rei, compartilhavam a esperança da nova rota.
Nos transportamos do século quinze para o vinte e um, encontraremos hoje uma economia mundial com fortes tormentas, vendavais destroem tudo pela frente, inclusive esperanças, então como deve ser nosso comportamento? Antes de tudo identificar a nossa embarcação. Ela é forte ou fraca? Temos pessoal suficientemente preparado para a condução em tempos ruins? Nossos instrumentos estão aferidos e sinalizam bem as condições do tempo? Sabemos ou podemos prever o final da tempestade? Quem pode nos ajudar nestas condições?
São muitas perguntas e as respostas podem não serem suficientes para a tomada de decisão; nesta hora, cabe ao dirigente a condução da nau, mesmo em mar calmo o bom comando é fundamental, imagine em momentos de tanta dificuldade. Hesitar seria o pior a fazer, decisões firmes e rápidas fazem toda a diferença, e deixam claro quem está no comando. Mas não podemos esquecer os colaboradores que navegam junto, eles fazem parte da solução e podem ser de fundamental importância na busca de uma rota segura a te o próximo porto.
Metáforas à parte, as idéias devem ser simples, o tempo urge por respostas, não tema em ousar na busca por soluções em tempos de crise, mas não se esqueça de contar com a colaboração direta dos comandados, sem nenhuma dúvida, os resultados serão bem melhores, e os possíveis erros ou fracassos são compartilhados e não simplesmente divididos.
Não devemos esquecer que somos pessoas, homens e mulheres em busca de um lugar ao sol, um porto, de partida ou de chegada, mas somos gente, e gente tem dor, alegria, medo, tristeza, dúvidas, sonhos, e somente outra pessoa pode ser capaz de entender estes sentimentos. Muitas vezes nos esquecemos de olhar para outro caminho, o interior. De nós mesmos, nos deixamos contaminar pelos fatores externos, pela pressa, pela alta expectativa, pelo tempo, pelos superiores, pelos subordinados, e por mais tudo o que você se deixar cobrar. Está formada nossa tempestade particular, às vezes muito mais difícil de vencer que a externa, com ondas enormes em céus de raios e chuvas torrenciais. Pois não nos expomos nem deixamos à mostra as nossas fraquezas e dúvidas, não confiamos nem muito menos compartilhamos.
Note que chamei novamente a palavra compartilhar, posso estar errado, mas acredito ser uma das chaves deste momento que vivemos nas empresas, na economia, na vida privada. Compartilhar a princípio a dúvida, para depois compartilhar principalmente a solução. Também devemos compartilhar as expectativas, vai trazer um ótimo resultado, pois ninguém poderá dizer no futuro que alcançou menos do que estava esperado; se lembre que os paradigmas foram à pique nestas tempestades atuais, sendo hoje o tempo de uma nova construção, os parâmetros estão sendo revistos a todos os momentos, e é nesta hora que devemos fazer a curva, transformando o Cabo das Tormentas, em Cabo da Boa Esperança.
Até a próxima.
Comentários
Postar um comentário