A difícil arte de guardar um tesouro.


J. Carvalho Neto
Já vai longe o tempo que a história fala de tesouros, desde os primeiros livros conhecidos pela humanidade, relatos de tesouros imensos, perdidos e achados, de lutas infinitas, de mortes incalculáveis, de povos que se digladiam por conta do tal tesouro.

Vinte e um séculos depois, o tempo foi solidário no tema, e aglomerou mais um sem fim de histórias, estórias e lendas sobre tesouros, a grande maioria sem um final feliz; pois, ou o bendito não é encontrado apesar dos esforços e lutas, ou simplesmente é pulverizado ou destruído durante a disputa pela posse da enorme riqueza.

Dentre tantos objetos considerados e guardados como tesouros, somente poucos como ouro e pedras preciosas ainda mantém mesmo fascínio e valor. Nos dias atuais já possuímos discernimento suficiente para listar uma série de bens também tratados e considerados de altíssimo valor, todos tangíveis, que estão guardados em cofres inexpugnáveis e fortalezas protegidas por rígidos e extensos esquemas de segurança. Seus possuidores gozam de grande riqueza e se beneficiam das proezas que esta condição proporciona à pessoas e nações que a possuem, em um mundo cada vez mais distantes dos valores básicos relativos a pessoa humana e suas infinitas formas de viver e conviver bem neste mundo. Sobre estes bens, em nada ou pouco conheço, logo nada de novo tenho a escrever, salvo o que é de domínio público.

Na vida real, as empresas lutam para sobreviver e se possível crescer em meio a extenso turbilhão da crise mundial de crédito e de confiança que assola o mundo desde setembro de 2008; e seus tesouros estão em outras formas, em outros formatos, muitos deles vivem longe de cofres, nem poderiam; são os valores intangíveis de uma empresa. Não importa o tamanho, todas as empresas e também as pessoas possuem tesouros intangíveis. É pena constatar que muitos ainda não se deram conta do que têm da riqueza desconhecida ou menosprezada que vive ao lado.

Começamos pelas marcas das empresas ou dos produtos que são fabricados e comercializados. É comum perceber mesmo que superficialmente, o descaso que são tratadas e manipuladas, às vezes até abandonadas à própria sorte nos ringues cruéis do mercado; com um pouco de cuidado e trabalho, estariam em outra posição, gerando outro tipo de rentabilidade e sem dúvida projetando a imagem e o valor da empresa para cima. Este exemplo se aplica tanto à mercadinhos de bairros quanto a grandes corporações, incluso empresas que foram líderes em seu segmento.

Quando os telefones celulares começaram a surgir, tínhamos pouquíssimas opções de modelos e fabricantes, mas todos queriam ter um Motorola, caso alguém com poderes sobrenaturais predissesse que em 15 anos a empresa estaria dividindo por baixo o mercado com os finlandeses da Nokia e os suecos e japoneses da Sony/Eriksson, e que além disso, todos estes estariam em batalha para derrotar um novato que até aqui somente fabricava computadores e agora tem um telefone dos mais desejados, você com toda sabedoria o chamaria de lunático.

Ocorre que a americana Motorola investiu menos que deveria em pesquisas nas áreas de baterias e sistemas operacionais, não demorando para que a Nokia e a Sony/Eriksson tivessem equipamentos mais atraentes, mais leves, com mais funções e principalmente, que poderiam demorar horas até a próxima recarga, até hoje uma dos principais atributos da mobilidade. Neste exemplo, os concorrentes vislumbraram a possibilidade de crescer no mercado, mesmo lutando contra um gigante mundial; ousaram, e conseguiram, pois a empresa até então líder, descuidou do consumidor que exigia a cada oportunidade inovação e comodidade. Quem pagou a conta foi à empresa e seus acionistas, ficando para a história, um exemplo verdadeiro de como o tesouro da Motorola, que era seu domínio tecnológico, foi desprezado, ficando desprotegido, possibilitando o ataque da concorrência. É sempre importante lembrar, neste exemplo a guerra de preços ficou de fora, o alvo era sempre a inovação tecnológica, novos serviços e funções, pois os consumidores pagaram mais e continuam ainda dispostos a pagar por estes diferenciais.

Como então guardar estes tesouros em tempos virtuais? Antes de tudo, mantenha seu pessoal, sua equipe valorizada. Estimule a permanência de sua equipe na empresa, deixe sempre claro a possibilidade de crescimento, seja em postos de trabalho, seja em salários e benefícios. Seja claro e transparente quanto aos valores primordiais à sua empresa. Nunca subestime a capacidade da concorrência ou do mercado em fazer um produto ou serviço melhor do que você faz hoje. Lembre-se que os recursos em geral estão disponíveis à todos, é apenas uma questão de preço e de tempo, cada vez mais curto e com forte tendência de ficar em parte mais barato. Avalie o mercado sempre com olhos do consumidor, as respostas serão mais efetivas e resultaram em melhorias imediatas se forem escutadas e postas em prática. Veja os passos dos concorrentes, não imitar nem copiar, mas observar de perto é sempre recomendado, principalmente se você produz para o consumidor final e seus serviços ou itens têm grande dispersão de consumo por faixa social. Use a concorrência como balizadores de direção, algumas vezes eles estarão certos, outras vezes vão deixar escapar aquela oportunidade que a sua empresa e você sempre esperaram e não sabiam ou não conseguiam identificar. Por fim, use sua sensibilidade para envolver a todos na sua equipe ou até mesmo na empresa para preservar e proteger o que ela tem de mais valioso.

Você pode então perguntar, em tempos de valores intangíveis cada vez mais voláteis, como identificar o que é tesouro e o que é ouro de tolo?

A resposta pode até parecer complexa, mas leva em seu núcleo uma simplicidade esclarecedora. Empresas assim como as pessoas, têm um ciclo de vida e crescimento similar na forma, e totalmente diferente na duração. No auge da vitalidade e fortaleza, costumam escutar pouco e experimentar muito, uns são beneficiados pela escolha, crescem, se fortalecem, consolidam a sua posição, preparando o terreno para os passos que o levarão a um futuro seguro e promissor. Outros tantos, geralmente a maioria, não sabem equilibrar o experimentar e o ouvir, tomando decisões equivocadas, algumas até estapafúrdias, causando desequilíbrio e desorientação no rumo de seu crescimento, geralmente estacionando em uma posição sem expressão ao mundo, ou por vezes, sucumbindo ao erro e desparecendo, fruto de absorção por outros, ou simplesmente são pulverizados do cenário, morrem. A diferença nos rumos é que existiu um preparo anterior ao momento da decisão, a empresas e as pessoas que compõem os cargos de comando, estavam verdadeiramente preparadas, conheciam a fundo os valores fundamentais, os objetivos, o mercado, e principalmente o consumidor que precisavam atingir. Este conjunto de conhecimentos, somados aos ativos formados desde a fundação da empresa representam hoje seu maior tesouro. Desprezar o mercado, escutar pouco ou se distanciar do consumidor, olhando apenas para dentro de si, enxergando os problemas em primeiro plano, tomar atitudes excessivamente defensivas; são alguns dos sintomas que indicam que o clico de vida ou de importância desta empresa no cenário tende a diminuir.

Não podemos esquecer que são as pessoas que constituem as empresas, e se por uma infeliz conjunção de arrogância, o despreparo intelectual, o desconhecimento de mercado, o desprezo às ferramentas disponíveis, adicionados de pouca capacidade de audição e experimentação errônea, formam a composição mais explosiva que pode ser guardada na instalação de uma companhia, capaz de dinamitar o seu mais valioso e bem guardado tesouro. Portanto vai aqui uma simples recomendação, já escrita em um daqueles livros muito antigo que tratam de histórias dos homens e de alguns tesouros, é possível ler algo mais ou menos assim, onde estiver o seu coração estará o seu tesouro.

Se você é desses que ocupa um cargo de decisão, comanda equipes, lidera pessoas, mas acredita que a sua verdadeira missão não é esta. Tome uma sábia decisão, siga seu coração, deposite seus tesouros em outros cofres, mesmo com perdas visíveis, o final da estória lhe será favorável. Para seu posto, surgirá alguém preparado para depositar e guardar melhor o tesouro da empresa. Sem dúvida uma decisão difícil, mas apenas os melhores serão felizes com as tomadas de decisão, ou outros serão sombras, ou até pior, serão poeira de tesouro.

Até a próxima.

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