Compromisso. Essa era já se foi?
Nasci em uma pequena cidade no
Curimataú paraibano, chamada Caiçara, que nos anos 60 não deveria ter mais de 2
mil habitantes. Embora houvesse me mudado para João Pessoa ainda criancinha;
vivi em minha cidade natal, praticamente todos os finais de semana e férias até
os 07 ou 08 anos de idade, portanto meu coração se divide entre Caiçara e João
Pessoa.
Convivi muito com pessoas mais
velhas, meus avós estavam muito presentes nos meus dias, sendo que o avô
materno, Zé Lopes, era comerciante proprietário de uma sortida venda, no melhor
ponto comercial da cidade, de esquina com a matriz de Nossa Senhora do Rosário,
de onde assistia as negociações em grosso e no varejo com muitos de seus
clientes. Por sua vez meu pai Jurandi
Carneiro, também comerciante de algodão e agave (sisal) também me proporcionava
testemunhar inúmeros acordos comerciais que antes de serem levados a um caderno
pautado, eram selados com efusivos apertos de mãos e palavras de concordância
mútua. Tudo acertado, preço condições e prazos; nada mais restava a questionar.
As coisas iriam acontecer sempre dentro das condições negociadas.
Minha primeira escola foi o
Instituto La Salle, em Jaguaribe, onde a diretora era a sisuda e inesquecível
Daura Santiago Rangel, por lá o dito era obedecido e não se questionava. Assim
como na minha família, a verdade era bem precioso, tratado com zelo e orgulho. Estes personagens juntamente com minhas avós,
minha mãe e meu bisavô, Alípio Barbosa de Carvalho, fizeram em minha cabeça uma
trincheira indestrutível da honra, da palavra, da verdade e da consciência
tranquila. Aprendi inquestionavelmente a cumprir com meus compromissos e a
somente acertar e aceitar termos que poderiam e seriam cumpridos à risca.
O tempo passou e estes tempos
memoráveis me enchem de saudade e alegria, e porque não dizer de orgulho. Ao
mesmo tempo me entristeço com o destino que os homens deram à honra e a
palavrada dada. Não é uma culpa
específica de ninguém, e ao mesmo tempo é culpa de todos, porque hoje vivemos
em um mundo que a palavra, gestos, acordos e compromissos são imensamente
frágeis. Não há nenhum pudor em desfazer unilateralmente pequenos acertos ou
grandes acordos, tudo pode tudo é permitido, inclusive dizer que não foi bem
aquilo que se falou. A capacidade do ser humano atual é infinita, para o bem e
para o mal. Falando em bom português, poucas pessoas são capazes de honrar
verbalmente um compromisso, afinal de contas quase ninguém faz questão de ter vergonha na cara.
Nos negócios de hoje, se fazem
necessários pelos menos 04 vias contratuais, devidamente registradas em
cartórios, com pelo menos duas testemunhas, todos com assinatura reconhecida,
sendo que em alguns casos este reconhecimento não pode ser por semelhança e sim
por autenticidade ou exatidão. Estas atitudes deveriam ser suficientes, mas
para a nossa surpresa os tribunais se apinham de ações com defesas advocatícias
ricas em explicações, provas e contraprovas, se referindo às laudas e decisões
de inúmeras instâncias de nosso poder judiciário; em resumo, nossos advogados
nunca foram tão exigidos, ou nunca foram tão acionados.
Nos tribunais do trabalho a
similaridade é ainda mais assustadora, sendo que por lá a dissimulação de
muitos, se transforma em verdade, não importando o mal que causem, nem o
prejuízo que acarretem. De uma vez por todas se instala em nosso Brasil a
famigerada lei de Gerson.
Portanto, em um cenário tão
desalentador para a postura ética e correta, não é de estranhar que cada vez
mais, empresas e clientes, percam cada vez mais tempo com formulários e
contratos. A busca de uma proteção mútua é hoje prática comum. Como diria uma
letra de musica pop que tocava nos anos 90, “...ainda vai levar um tempo, prá
gente poder dar risada, assim caminha a humanidade...”. Mas como bom otimista
que sou, não tenho dúvida que em breve estaremos comemorando a volta da honra,
da palavra do compromisso. Pra mim esta era nunca acabou e nem vai acabar.
Até a próxima.

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