Visitei um país em crise. E ai?

Em um país como o Brasil, contumaz em propagar sua própria mentira, quase como um mantra oficial, onde muito do que o governo central divulga tem uma pitada de mentira, com uma desfaçatez absurda, encontrar um país que vive uma grande crise e se nega a esconder as feridas é um grande alento.
Sou do tipo pouco afeito a esconder coisas, e por vezes com muita frequência me pergunto por que tantos outros não fazem o mesmo. Nos dias que o individualismo impera de maneira manter a transparência uma verdade absolutamente distante, parecer que esta  função da governança passa a ser um grande desafio dentro das corporações, governos inclusos.
Desembarquei na Espanha, e esperava encontrar um país vivendo uma grande crise, afinal estava em um dos países mais afetados pela recente onda de destruição econômica que assolou o mundo desde o desastre de Wall Street com a bancarrota do Lehman Brothers em outubro de 2008. Passado alguns meses a Europa sofreu duro golpe de credibilidade de suas instituições financeiras e estava feita a destruição. Milhares de empregos viraram somente estatística e a desesperança crescia juntamente com protestos e fechamentos de empresas, fábricas, construtoras, e empregos públicos que minguavam. Estava instalado o caos.
Não sei se bombardeado por nossa imprensa, geralmente alarmista, ou por viver em um país onde todas as notícias oficiais são invariavelmente boas demais para serem verdades, esperava encontrar um quadro ainda mais caótico do que imaginava. Mas não, a cada instante tinha prova robustas de que as instituições estavam acima de qualquer crise e principalmente a semente da esperança havia brotado e dado frutos, o povo espanhol vislumbra uma saída próxima e trabalha para esta crise ficar para trás e deixar muitos aprendizados. Havia aprendido ai minha primeira lição, uma nação é muito mais forte se a grande maioria tem um objetivo comum.
Andei pelas ruas, conversei com taxistas, garçons, recepcionistas, vendedores, e um líder empresarial, na fala de cada um havia um ponto comum, que a crise se dissipa no horizonte e a Espanha tende a uma estabilidade econômica que promoverá um crescimento mais estruturado e firme. O grande problema do desemprego que atinge principalmente os mais jovens também estava claro na cabeça de todos. Durante os primeiros anos do novo século, o sul da Espanha, principalmente as áreas litorâneas recebeu um grande aporte de empreendimentos imobiliários dos diversos tipos, grandes condomínios, hotéis, ressortes e empreendimentos comerciais pipocavam a cada segundo qual milho em fogo alto, houve uma patente falta de mão de obra, o que atraiu a juventude que estudava para este paraíso da construção civil. Muitos jovens que ainda iam concluir seus estudos se tornavam mão de obra nestes empreendimentos. Houve um verdadeiro êxodo estudantil, chegada à crise de 2009/2009 estes trabalhadores estavam desempregados e desqualificados para tentar nova e difícil recolocação. Na outra ponta, muitos funcionários aderiram ao programa de demissão voluntária e aposentadoria antecipada, na esperança de se colocar no mercado como empreendedor, ocorre que a extensão da crise também ultrapassou todas as piores previsões, e esta massa também passou a engrossar as estatísticas de desemprego.
Foram muitas medidas amargas, afinal somente os tolos acham que se cura uma grave doença apenas com água e açúcar, e toda a cadeia econômica fez um grande esforço pela recuperação. Benefícios foram cortados, salários reduzidos, foram implantados inúmeros planos de banco de horas e férias fora da sazonalidade dentre outros. Também foi necessário o aumento de algumas tarifas públicas o que sem dúvida é um remédio muito amargo.
Porém de todo este labirinto ficou a segunda grande lição, a competitividade do país depende da competitividade de cada um de forma muito mais direta do que se imagina. A capacidade de poupança, inclusive, a busca permanente pela otimização de recursos, estruturas e pessoal, fez com que o povo espanhol voltasse a sorrir.  Como vejo se avizinhar uma crise por aqui, vou propagar esta experiência de ter visitado um país que já da sinais claros de ter vencido a crise.

Até a próxima.

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