Terceirizando a responsabilidade
Qual seria a graça de viver em um
país que não sofre com terremotos severos, maremotos ou tsunamis, não enfrenta
grave risco de incêndios devastadores no verão, ou mesmo não sofre as durezas
de um rigoroso inverno que a tudo e a todos paralisa? Seria a tranquilidade,
harmonia, previsibilidade e constância nas condições climáticas e geológicas.
Ou seja, ótimas condições para se viver em um lugar onde as oportunidades
seriam uma constância, assim como o bom clima. O melhor de tudo isso é que
quase temos este lugar, eu disse quase, uma palavrinha chata e instável, que
condiciona tudo que ela antevê à instância do sobrenatural e do indefinido.
Nossa jovem cultura empresarial tem um desafio
hercúleo pela frente; digo jovem porque o empresariado brasileiro sofreu
transformações importantes na última metade do século XX e no início deste
século. E este desafio se chama mão de obra qualificada. Afinal não podemos
esquecer que temos toda uma geração que se prepara para entrar em ação, mas
sofre hoje de uma distrofia cerebral aguda, e já explico a seguir. Este desafio
de mostra ainda mais difícil, quando cruzamos a estagnação intelectual de nosso
sistema de ensino, com o grave distúrbio social que atravessamos, que em última
análise, são de origens semelhantes, e culminam em um processo de alienação,
desconexão e despreparo que tentarei explanar a seguir.
Segundo um estudo de uma organização
internacionais ligado ao setor produtivo que li anos atrás, a força de trabalho
de uma nação está dividida aproximadamente entre os chamados operacionais (57%),
distribuidores/controladores operacionais (23%), comando executor (11%), alto
comando/risco decisório (9%). Nesta divisão estão inclusos todos os produtivos,
indústria, serviços, agricultura e pecuária, serviços públicos e terceiro
setor. Aplicando uma lógica simples de ascensão de carreira, não é difícil
compreender esta escala, e vou partir dela para concluir a explicação sobre o
enorme desafio empresarial que o Brasil tem pela frente.
A geração que se prepara para
entrar no mercado de trabalho, sofre invariavelmente de uma certa utopia
(natural da idade) somada por um certo torpor decisório e principalmente um distanciamento
da realidade. Este distanciamento se dá principalmente pelo desvio de finalidade
a que se prestou o ensino em grande parte das escolas do Brasil nas últimas
décadas, coroada com a sorrateira e vergonhosa campanha do “nós contra eles”
por que enveredou grande parte da nação desde a última eleição de 2014. Já tratei
em outras colunas desde horripilante acontecimento, de consequências danosas à
nação, cujo verdadeiro estrago só será conhecido ao longo dos anos; mas desde
já posso apostar que um dos tentáculos deste estrago está na capacidade de
interação, obediência e comprometimento de nossa jovem força de trabalho. Estes
jovens estão instruídos de maneira errada a julgar com parcialidade e
superficialidade os fatos da vida real, atribuem a um terceiro, geralmente
impessoal e muitas vezes até mesmo irreal culpas e responsabilidades. Terceirizam
com enorme facilidade o destino da nação, pior ainda, terceirizam o seu próprio
destino. Via de regra não apresentam preparo intelectual, não dominam a língua
portuguesa, não conhecem nossa história (só alguns poucos capítulos separados,
como um seriado cujo bons atributos estão em capítulos separados) e no campo
das ciências estão totalmente descompromissados com resultados mínimos. São
relativamente antenados, mas aqui também fica muito superficial este
entendimento, confundem princípios históricos e culturais com posições isoladas
atuais, como é o caso da migração dos refugiados árabes e africanos mundo à
fora. E por fim não querem um compromisso com a empresa ou com o emprego. Quem
não experimenta hoje dificuldades em contratar e reter os mais jovens,
principalmente os estagiários? Como diria um dito popular, mal chegam e já
querem sentar na janela do ônibus.
Mas há exceções, na verdade
existem muitas exceções, que estão com lugar garantido nas empresas mais
promissoras do nosso mercado, seja este local ou nacional, e ainda bem que
existem esta turma jovem que trás no seu DNA toda a energia e inteligência que
tanto precisamos para alcançar o maior e melhor desenvolvimento de nossas
empresas e de nossa nação. Afinal, de nada adianta terceirizar a culpa do hoje
e cobrar no futuro pelo futuro promissor que nunca chegou, se você quer um
futuro melhor, o melhor e mais seguro caminho é arregaçar as mangas e abrir seu
cérebro e começar desde já, como quase todos começaram, de pequeno ao topo, de
estagiário à chefia, de aprendiz à líderes. Mãos à obra garotada.
Até aproxima.

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