Atravessando o Deserto da Desesperança

Nasci em uma fazenda, bem no meio do curimataú nordestino. Por lá a vida era dura, tão dura que a água já vinha temperada; com sal.
Enfrentar dificuldades faz parte de minha criação,  e de minha  pessoa, não tive sobras, apesar de ter sido agraciado com abundância de valores morais e muito carinho e atenção. Enfrentar desafios está no sangue, e já os venço desde os tempo que mudei para a capital, aos 03 anos. Mudança de cidade, de vida, de escola,  tudo é um desafio.  Passar em exame de seleção,  em vestibular (foram 07, entre eles, 03 para Engenharia Civil), casar cedo, e abrir com meu pai e meus irmãos uma concessionária Renault na Paraíba em 1994. São muitos desafios de vida.
Implantar uma marca em um mercado novo, inflação,  crises econômicas e políticas,  incertezas e instabilidades. Desafio de crescer, de profissionalizar, de ganhar mercado, de construir imagem e ter uma história que possa ser testemunhada e até  comemorada, os desafios nunca deixaram de existir.
Certa vez me perguntaram se eu nunca havia pensado em desistir,  de pronto respondi; todos os dias. Mas dou um sorriso pro tempo, tomo um fôlego,  relembro dos desafios e de tantos companheiros de construção desta jornada, como meu pai e meus irmãos; que no minuto seguinte, o pensamento já mudou, vamos em frente.
Já foram tantos desertos atravessados,  decerto, algumas ocasiões  o oásis parecia que nunca chegaria, mas cá estamos nós,  com 26 anos de estrada e algumas travessias de desertos realizadas com sucesso.  Hoje compreendo que todas as outras foram uma espécie de preparatório,  de treinamento, pois a verdadeira travessia chegou.
Em pleno século 21, a Terra puxa o freio de emergência,  povos e nações atônitos lutam contra um vírus,  mas principalmente contra o medo. Faz uns dias que escrevi, este é o vírus do medo. 
O desenrolar da trama não deixa dúvidas,  em algum momento tempos atrás,  o mundo perdeu a direção,  e o medo, sem piedade, comanda a dança.  Ou seria o velório ? Morreram homens, mas também foram soterrados a esperança e a altivez de líderes e nações que se entregaram a uma derrocada malfadada paralisia e temor, que deixará mais problemas que soluções ao fim da hecatombe. O mundo vai chorar por longo período. Desemprego, pobreza e muita desolação.
Não me refiro às mortes, que são  e serão lembradas com tristeza e dor, um vida é muito valiosa, muitas vidas é um tesouro que rios de ouro em pó não pagam, não é isso. O mundo chorará, e no Brasil não é diferente, porque dirigentes superficiais e inescrupulosos, oportunistas e vãos, olharam para baixo, não foram capazes de entender que a desesperança mata mais que qualquer pandemia,  e pior, depois de instalada, praticamente não há vacinas de curto prazo.
O que assistimos nos dias atuais, é uma sequência desastrosa de negligência e oportunismo de líderes que deveriam verdadeiramente nos proteger, afinal, quis o destino, estivessem eles nas cadeiras de comando. Muito em breve a história irá classificar sem piedade alguma, quem foi um embuste e quem merece um pedestal.
Senhores, manipuladores do medo coletivo em causa própria,  estes supostos líderes nos jogaram em cova rasa, sem nem mesmo direito a missa de corpo presente.
A decisão atabalhoada, oportunista, demagoga de fechar o funcionamento das atividades  econômicas,  é um mal incalculável ao qual nosso país foi obrigado a sucumbir. O despreparo e interesse próprio já deixou marcas que anos de trabalho duro não conseguirão recuperar. Muitas empresas, dos  mais diversos portes, não resistirão a hecatombe do medo. Particularmente para os concessionários,  é um deserto sem fim a ser atravessado, e não é difícil imaginar que boa parte deles, pode não conseguirá sobreviver. 
Porque medidas tão impensadas, há  e sempre haverá doses certas de veneno a ser aplicado para extirpar a praga. Mas não se pensou em nada disso.  A " Escolha de Sophia " pela qual os governantes passaram, não justifica erro tão absurdo.
Estamos diante da instalação institucional da desesperança,  da oficialização regulamentar da devastação de poupança e patrimônio alheios,  devastação tal, sustentada pela total irresponsabilidade de pessoas cuja nossa esperança gracejava à sua liderança.
Aos críticos de minha posição eu deixo o silêncio, silêncio de quem já enfrentou desertos,  silêncio de quem já varou noites a pensar na saída,  que já fundiu neurônios em busca de soluções para permanecer com nossa concessionária aberta e não mandar para a rua 200 ou mais país de famílias. A grande maioria dos críticos nunca assinou uma carteira de trabalho nem nunca pagou um centavo de FGTS ou INSS de um empregado.
É claro que medidas são necessárias para enfrentar uma pandemia, que precisamos isolar os idosos e as pessoas da grupos de risco. Sabemos que toda esta cortina de fumaça encobre um serviço público de saúde deficitário,  em especial na minha pobre Paraíba,  onde uma gangue de salafrários da pior espécie roubou sem medidas dos cofres públicos,  milhões de Reais de nosso já combalido sistema de saúde.  Sabemos que uma correia histérica aos hospitais e postos de saúde somente pioraria as coisas,  mas a dose do veneno, periga não só matar a erva daninha,  mas todo o campo onde verdejava a esperança,  e será inevitável experimentar o deserto da desesperança,  onde poucos, muito poucos, estarão aptos a atravessar.

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